António Guterres: “A próxima guerra será precedida de um ciberataque”

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O número de rostos conhecidos na sala também deixava claro que estávamos perante uma atribuição a um nome conhecido da política nacional. Primeiro, a representação do Estado ao mais alto nível, com o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que fez as honras ao entrar no palco com o próprio Guterres e o cortejo académico — e que no seu discurso classificou Guterres como “o governante nacional porventura mais consensualmente amado”. Na primeira fila, estavam ainda António Costa (primeiro-ministro) e Ferro Rodrigues (presidente da AR).

A casa estava cheia de figuras conhecidas e contava ainda com uma mão cheia de convidados estrangeiros, denunciados pelos auriculares da tradução simultânea que tinham nos ouvidos, para acompanhar os discursos. Estavam lá ministros (Augusto Santos Silva, Pedro Marques), antigos colegas de Governo (o dito Santos Silva, Oliveira Martins) e até um ex-Presidente, Jorge Sampaio. Esteve presente o velho PS, com Carlos César como representante da bancada parlamentar, e o novo PS, com o presidente de câmara Fernando Medina. Até Assunção Cristas, líder dos centristas, quis marcar presença. Já do recém-eleito Rui Rio, nem sinal.

“António Guterres é seguramente o ex-aluno do Técnico que mais visibilidade obteve a nível mundial”. Arlindo Oliveira, presidente do IST, justificou assim a sua decisão — e a aceitação — de propor o doutoramento honoris causa para Guterres, sublinhando ainda o seu papel de apoio à ciência enquanto primeiro-ministro, ao nomear Mariano Gago como ministro da Ciência.

Alterações climáticas e ciber-guerra são os principais desafios

A ligação ao Técnico revelou-se fulcral depois da saída de cena da política. Em 2003, tornou-se professor convidado nas disciplinas de Seminário de Desenvolvimento Sustentável e Seminário sobre Inovação, apresentando um currículo de “apenas três parágrafos” que terminava com um simples “ocupou o cargo de primeiro-ministro dos XIII e XIV Governos Constitucionais”, recordou em palco Arlindo Oliveira — o mesmo responsável por trazer à baila o episódio em que Guterres provocou um curto-circuito num laboratório da universidade, enquanto estudante, por estar distraído a discutir política.

Guterres pode ter aproveitado esta ocasião para refletir sobre a sua passagem pela política nacional, mas não esquece que atualmente ocupa o cargo de secretário-geral da ONU.

Algumas das questões centrais do nosso tempo têm a ver exatamente com esses temas — sustentabilidade e inovação — a que na altura me dediquei”, sublinhou Guterres, dando como exemplos as alterações climáticas e a falta de regulação da ciber-guerra como principais desafios do nosso tempo.

Sobre o primeiro desafio, deixou a mensagem de que “é preciso não só concretizar [o acordo de] Paris, mas ter uma ambição acrescida”. Quanto ao segundo, deixou bem clara a gravidade da situação: “Estou absolutamente convencido que a próxima guerra entre Estados será precedida de um massivo ciber-ataque”, decretou, destacando que “não há nenhum esquema regulatório” como a Convenção de Genebra que se aplique a um conflito deste tipo.

No discurso, aproveitou para lançar farpas ao Presidente norte-americano, Donald Trump, embora nunca referindo o seu nome, ao dizer que as alterações climáticas “continuam a andar mais depressa do que nós”, embora exista “quem duvide [disso], contra todas as evidências científicas”. E na conferência de imprensa, quando questionado sobre o Pacto para as Migrações que as Nações Unidas querem promover — e do qual os EUA já se retiraram –, reforçou a necessidade de criar um novo compacto “que reafirme os direitos dos migrantes e que possa contrariar o discurso xenófobo a que temos assistido”.

Enfrentando problemas como a escalada de tensão no Médio Oriente, agora entre Israel e o Hezbollah, Guterres assume as preocupações, dizendo que “basta às vezes uma faísca” numa região tão fraturada e interligada como o Médio Oriente. O secretário-geral está atento, garante. E pronto para sugerir soluções para os novos desafios, como uma plataforma criada pela ONU que reúna governos e especialistas para promover uma maior regulação da internet. “As formas tradicionais estão desadaptadas, porque são muito lentas”, afirma.

Do jovem que estudava física quântica ao som de Beethoven a primeiro-ministro

Não é o primeiro doutoramento honoris causa que Guterres recebe, nem sequer o primeiro de uma Universidade portuguesa (tem títulos atribuídos pela Universidade da Beira Interior, de Coimbra, e a Europeia de Madrid). Mas este é especial, ou não tivesse vindo da instituição onde se formou, em 1971, com uma brilhante média de 19 valores em Engenharia Eletrotécnica. Guterres estudante era, assegura o presidente do IST, um aluno brilhante que resolvia problemas de física quântica ao som de Beethoven.

A licenciatura foi o primeiro auspício de uma carreira de sucesso, que viria a distinguir Guterres não na Engenharia, mas sim na política, de primeiro-ministro de Portugal a secretário-geral das Nações Unidas, com uma passagem pelo Alto Comissariado para os Refugiados. O próprio admite essa falta de currículo na Engenharia, reconhecendo que nunca exerceu e que apenas mudou “dois ou três fusíveis na vida”. “Mas se hoje tivesse de entrar para a universidade sabendo que iria fazer da vida aquilo que exatamente fiz, teria voltado a entrar para o IST”, disse sem rodeios no discurso, sublinhando que as universidades servem para “aprender a aprender”. “O IST teve uma influencia decisiva na minha vida e na maneira como vejo o mundo e como vejo os outros”, facto pelo qual diz ter “profunda gratidão.”

Foi enquanto estudante que Guterres passou a fazer parte da Juventude Universitária Católica e do Centro de Assistência Social Universitária, bem como do chamado Grupo da Luz, onde conheceu Marcelo Rebelo de Sousa — que esta segunda-feira o classificou em palco como “o mais brilhante da minha geração” e que pontuou o seu discurso com um longo abraço ao visado. Foi no final dos anos 60 que o socialista viu de perto a miséria e a pobreza do país, agravadas pelas cheias de 1967.

O próprio definiu esse momento de “choque profundo” como “a causa da sua traição ao IST” e decisivo para a sua entrada na política. Mais tarde, já enquanto chefe de Governo, garante que o horror dos bairros de lata orientaram a sua ação em áreas como a criação de uma rede pré-escolar ou a introdução do Rendimento Social de Inserção. Ao recém-doutorado honoris causa do Técnico — onde se formou o político, mas também o homem — não faltam ideias. Nem ideais, segundo o próprio.

Source :

Observador

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