Como a Lava Jato extrapolou os tribunais e virou série da Netflix, filme e até funk

Image: PaginaBrazil.Com

 

Sobre a mesa, uma calculadora financeira e várias cédulas. Um homem vestindo terno e um grande relógio dourado assina papéis em meio às notas de dinheiro.

A cena acima poderia fazer parte da série O Mecanismo, produção dirigida pelo cineasta José Padilha e inspirada na operação Lava Jato que estreou na última sexta-feira no serviço de streaming Netflix já causando polêmica – houve quem demonstrasse irritação, principalmente entre a esquerda, por ver a famosa frase sobre “estancar a sangria”, dita na vida real pelo senador Romero Jucá (MDB-RR), na boca do personagem que representa ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT)

Mas não é: o homem de rolex no vídeo é MC Pesadelo, e as imagens fazem parte do clipe oficial do funk Lava Jato, lançado em julho. No YouTube, o clipe já foi visto mais de 115 mil vezes. As produções do funkeiro e do cineasta deixam claro: ao completar quatro anos, a Lava Jato é, de longe, a mais famosa investigação de corrupção do país até hoje.

Além das telas, o interesse pelo caso também movimenta o mercado editorial. Na última semana, um leitor brasileiro que procurasse pelo termo “Lava Jato” na ala de livros da loja online Amazon encontraria em torno de 40 volumes sobre a investigação de corrupção cujo principal expoente é o juiz federal Sergio Moro, de Curitiba.

O acervo é ainda maior se a busca incluir termos como “Petrobras” e “Odebrecht”. Uma bibliografia que inclui desde livros técnicos de Direito até obras de ficção: nesta última categoria está o livro Contos de Natascha, descrita como uma compilação de “contos eróticos de uma advogada criminalista em São Paulo”.

As duas principais obras cinematográficas sobre a Lava Jato também são descritas pelos autores como obras de ficção – os autores de O Mecanismo dizem que a série é “livremente inspirada” na investigação real, talvez já antevendo críticas como a citada cima.

O mesmo se passa com o filme Polícia Federal – A Lei é Para Todos, que estreou em agosto passado. A película é baseada em fatos reais – o roteiro foi adaptado a partir de um romance de mesmo nome, redigido por uma escritora e um jornalista a partir de entrevistas com policiais federais e procuradores.

Mas como é o caminho entre as investigações e julgamentos – às vezes cheias de termos técnicos – e as telas do cinema e da TV, as páginas dos livros e o imaginário do público?

Do sigilo à ‘boca do povo’

Para o pesquisador Juremir Machado da Silva, a popularidade sem precedentes da Lava Jato é explicada pela interação de mudanças na legislação (como a Lei das Organizações Criminosas, de 2013, que facilitou os acordos de delação premiada), avanços na tecnologia de informação e comunicação e a atuação de indivíduos com uma imagem forte, como Moro.

“Todos os aspectos técnicos, todos os andamentos das investigações são explicados e ‘mastigados’ cotidianamente na mídia escrita e eletrônica e nas redes sociais”, diz Machado, que é professor do programa de pós-graduação em Comunicação da PUC-RS e doutor em Sociologia pela Universidade de Paris 5.

Pós-doutoranda em Comunicação na Faculdade Cásper Líbero, Deysi Cioccari afirma que, além disso, a operação reúne todos os elementos necessários para a cobertura midiática.

“É o nosso próprio seriado ‘da vida real’ passando todas as noites no telejornal. Nós temos, primeiramente, as transgressões de valores, com os casos de corrupção no centro político brasileiro; os bandidos, os heróis, os investigadores”, diz ela.

“Além disso, costuma-se dizer que ‘as pessoas estão cansadas de polarização’. Mas não é verdade. A política no Brasil ganhou um caráter ‘agonístico’, de ‘luta do bem contra o mal’, ou do ‘nós contra eles’. Isso desperta a emoção das pessoas, cria engajamento”, acrescenta Juremir Machado.

“O espetáculo só permanece porque a mídia se ocupa dele e fornece aos espectadores sempre uma nova denúncia, alegações, contra-alegações que mantêm a audiência atenta. Há um jornalismo interessado em revelar os segredos do campo político, e mais, um jornalismo que traz elementos de bastidores (…). A política e o star system (a indústria da comunicação e do entretenimento) se entrosam cada vez mais. Não é mais possível pensar a política sem a mídia”, diz Cioccari.

Vazamentos?

Integrantes da Força-Tarefa do Ministério Público Federal no Paraná e o próprio juiz Sergio Moro já disseram em público que manter a sociedade mobilizada e acompanhando as investigações é fundamental para o futuro da Lava Jato, mas negam ter vazado informações sigilosas para prejudicar a imagem dos investigados.

“A estratégia de usar a grande mídia, de vazar (informações), de posar como ‘salvadores da pátria’, tira muito da seriedade do trabalho tão necessário que os operadores da Lava Jato fazem”, diz o advogado criminalista Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, que tem alvos da operação entre seus clientes.

“Infelizmente, parte do Ministério Público e parte do Judiciário está usando a mídia de maneira indevida. Quando os procuradores vão apresentar uma operação, destas operações espetaculares que eles fazem, eles chamam a imprensa e durante duas horas ficam expondo as minúcias do caso, de investigações que às vezes estão apenas começando. Eles fazem isso para jogar aquele cidadão que está sendo investigado contra a opinião pública”, diz Kakay.

“Nunca houve nenhuma orientação neste sentido (de usar a mídia para prejudicar a imagem pública dos investigados). Nunca vi da parte deles (MPF) nenhum indício disso”, contesta o procurador da República Douglas Fischer, que integrou a força-tarefa da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal de 2015 a 2017.

“Nós (do MPF) nunca vazamos nenhuma informação para ninguém. E por que? Porque prejudica a investigação”, diz Fischer.

Em entrevista recente à BBC Brasil, o ex-procurador-geral da República, Rodrigo Janot, também negou que o MPF tivesse responsabilidade por qualquer vazamento.

A máquina de mídia da Lava Jato

Há quatro anos, a jornalista Christianne Machiavelli participa do mesmo ritual sempre que há uma nova fase da operação Lava Jato.

A primeira nota aos jornalistas é da Polícia Federal, com informações preliminares sobre a operação. Depois, policiais e integrantes do MPF podem (ou não) conceder uma entrevista, explicando o contexto e dando mais detalhes. “E aí, depois que todos os mandados foram cumpridos, eu mando para os jornalistas as informações do processo eletrônico, e o despacho do doutor Sergio”, diz ela.

“Doutor Sergio” é o juiz federal Sergio Moro, da 13ª Vara da Justiça Federal em Curitiba. Machiavelli é a responsável – com outras quatro pessoas – pela comunicação da Justiça Federal no Paraná.

Parte do sucesso de público da Lava Jato, especialmente nos primeiros anos da investigação, se deve ao “processo eletrônico” mencionado por Machiavelli. A metodologia deu tão certo que está sendo copiada por outros Estados do país.

Na Justiça Federal da 4ª Região, todos os processos tramitam de forma eletrônica: qualquer pessoa com a numeração dos processos pode acessar as ações em tempo real, e baixar os documentos relacionados ao caso. Machiavelli mantém um arquivo atualizado com todos os números dos processos públicos, que é distribuído aos jornalistas.

No último Congresso da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), em julho, a assessora de Moro ministrou uma oficina para ensinar jornalistas novatos a navegar o processo eletrônico.

Source :

BBC

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