Coreógrafo se inspira no Bispo do Rosário em espetáculo de dança

Photo: jb.com.br

 

O coreógrafo, dançarino e artista plástico Márcio Cunha diz se orientar “pela intuição”. Pesquisando obras de Arthur Bispo do Rosário para um novo espetáculo de dança, logo convenceu-se de que músicas de Antonio Nóbrega seriam as mais pertinentes. Pesquisou mais e descobriu “Galope beira-mar para Bispo do Rosário”, música do violinista pernambucano. Entendeu que não era coincidência: “Isso para mim tem muito a ver com espiritualidade e com meu processo criativo. Vou indo sem saber exatamente aonde, até que descubro relações inesperadas”, diz Cunha.

A canção, assim como outras de Nóbrega, estão em “Rosário”, montagem baseada na obra do artista brasileiro que estreia amanhã no Sesc Copacabana, em temporada de duas semanas, de quinta a domingo. Cunha, que interpreta e assina a concepção e a direção do espetáculo, diz estar interessado em aproximar corpo, sociedade e espiritualidade no espetáculo.

A obra encerra uma trilogia, que começou com “Frida-me” (2014), inspirado nas obras da artista mexicana Frida Kahlo, e teve sequência com “Céu de Basquiat” (2016), performance feita dentro de uma instalação, baseada nas obras do artista nova-iorquino descoberto por Andy Warhol. Cunha diz que “uma obra puxou a outra”. Há 17 anos ele cria espetáculos de dança livremente motivadas por obras de artistas plásticos.

No caso de Frida, quis partir dela para investigar o corpo. No processo, diz, acabou “revisando o próprio organismo e os próprios órgãos”. Em seguida, “foi atrás de uma figura masculina que tivesse a mesma força”. A agressividade do trabalho de Basquiat, que mostra, nas palavras de Cunha, “anjos negros, nus e fálicos” o atraiu. “Basquiat questiona a representatividade dos símbolos religiosos e da nossa percepção”, ele afirma.

O espetáculo sobre o Bispo do Rosário finaliza esse processo, mobilizando o coreógrafo sobretudo em uma dimensão espiritual. O artista plástico, que passou mais de 50 anos na Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, entendia estar em uma missão mística: sete anjos de cor azulada teriam lhe aparecido e ordenado que compusesse um inventário do mundo.

Os seus trabalhos são a resposta a esse chamado, não propondo, a princípio, ser arte. A partir de objetos produzidos com itens oriundos do lixo e da sucata, Rosário criou uma iconografia por vezes chamada de arte vanguardista. Entre os temas, destacam-se navios, estandartes e objetos domésticos.

“Essa crença espiritual me move muito”, diz Cunha, que afirma a ter incorporado junto a referências religiosas sincréticas. O coreógrafo também faz uso de um referencial de danças populares, como cavalo-marinho e maracatu, que, como define, “também trabalham o espírito”.

Para melhor entender a experiência da figura que quis homenagear, o coreógrafo passou uma semana na Colônia Juliano Moreira. Lá, conheceu Arlindo, um interno da Colônia desde os oito anos que também desenvolve uma obra escultórica. Uma delas, chamada “O barco”, integra o cenário, assim como um manto que faz parte do figurino. Cunha diz que o trabalho de Arlindo “é maravilhoso”. “Ele ainda será descoberto”, garante.

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jb.com.br

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