Mais indígenas na política, só com mudanças estruturais, dizem especialistas

Image: Instituto Humanitas Unisinos

 

A presença de Sônia Guajajara como vice na chapa de Guilherme Boulos à Presidência da República, oficializada ontem (10), em conferência eleitoral do Partido Socialismo e Liberdade (Psol), só vai representar uma abertura para maior representação indígena na política se houver mudanças estruturais. A opinião é do professor de Antropologia na Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), Spensy Pimentel.

Em entrevista ao Deutsche Welle Brasil, o professor comparou a chegada do metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à Presidência, em dois mandatos seguidos, ao baixo número de parlamentares nordestinos, de origem operária, no Congresso. Clique aqui para ler a reportagem na íntegra.

“Apesar do simbolismo da chegada de Lula à Presidência, não tenho notícia de que tenha aumentado o número de trabalhadores nordestinos no Congresso. O mesmo vale para a Dilma, com as mulheres, e Obama, em relação aos negros nos EUA. Mesmo assim, sua candidatura é uma novidade muito interessante. Talvez, ajude a perceber que os povos indígenas estão muito distantes dos estereótipos que a sociedade teima em reproduzir”, disse Pimentel ao site alemão.

No entanto, ele destacou que a presença de indígenas em universidades brasileiras é cada vez maior, há duas gerações. “Eles estão buscando essas ferramentas do mundo acadêmico e isso se reflete no jogo político deles. Não quer dizer que essa escolarização se traduza necessariamente em uma participação no sistema político oficial. No nosso sistema político também é assim. Não necessariamente o candidato com melhor formação será mais votado”, afirmou.

A reportagem do Deutsche Welle Brasil abordou ainda o ineditismo da candidatura, que reaviva o debate sobre a presença de representantes de povos nativos na política. E destacou que em 1982, o PDT elegeu o cacique Mário Juruna à Câmara dos Deputados – o único indígena que chegou lá.

O veículo alemão ouviu também a professora da Escola de Ciência Política da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) Clarisse Gurgel, que destacou a força do poder econômico na política brasileira como um fator determinante para a participação reduzida dos indígenas na vida institucional.

“Não é preciso ir aos rincões do Brasil para identificar a política do coronelismo. Mesmo em uma metrópole como o Rio, isso é observado. Mas, em regiões que concentram reservas indígenas, como o Norte, essa realidade é muito agravada. Num contexto em que os índios estão pauperizados e criminalizados, a penetração na política se faz refém dessas práticas de pirataria da política”, disse ao Deutsche Welle.

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