No aniversário de 198 anos, Uberaba preserva comércio que faz parte da história

Source: Internet

 

O Salão Tupy que fica no Bairro Abadia, o primeiro a ter cortes de cabelos femininos; a Choperia do Archimedes, no Bairro Fabrício, fundada em 1952 para comemorar um título e atualemente é reconhecida pela música; e a lanchonete Rei da Vitamina, no Centro da cidade, que surgiu em 1959, e foi point para os casais que saíam do cinema.

O presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) em Uberaba, Fúlvio Ferreira, disse que a história da cidade está ligada ao comércio.

“Uma vez que logo no início da cidade, ela foi fundada por causa do comércio, do Rio Grande, dos Bandeirantes que passavam. A cidade de Uberaba tem ligações fortes com o comércio. Ainda hoje percebemos as famílias tradicionais do comércio trabalhando há decadas. É muito bonito e o comércio cada vez mais se firmando com uma importância estratégica para a cidade”, avaliou Ferreira.

Centenária e pioneira

Quem vai ao Salão Tupy pela primeira vez fica fascinado mesmo antes de entrar. Uma argola fixada na parede, que era utilizada pelos clientes para amarrar os cavalos, meio de transporte muito comum na época em que o salão foi fundado, foi mantida no mesmo lugar.

As cadeiras foram importadas dos Estados Unidos há mais de 100 anos e estão bem conservadas, assim como as navalhas e as escovinhas utilizadas para fazer barba e cabelo. A freguesia já conhece o esquema de atendimento: não precisa marcar horário e nem ligar. No salão, os objetos mais modernos são apenas o ventilador e um relógio. O principal instrumento para barbear ainda é a navalha, que sempre é afiada no afiador.

Foi Osvaldo Alves Barbosa que abriu o salão na Rua Castro Alves. Ele saiu de Sacramento e veio a Uberaba para tentar uma nova vida. Na chegada, trocou um violão por instrumentos de barbeiro e foi aí que a profissão começou.

Imar Alves Barbosa, mais conhecido como “seo Biju”, de 79 anos, é um dos sete filhos de Osvaldo que aprenderam a ser barbeiro. Ele e o irmão Edson Alves Barbosa, o Macaco, são os responsáveis por tomar conta do Salão Tupy, muito conhecido por vários uberabenses.

Assim como os outros irmãos, seo Biju começou a trabalhar como barbeiro ainda adolescente. Seguindo a tradição, os ensinamentos foram repassados ao filho, Imar Junior.

“Somos em oito irmãos: sete aprenderam a profissão de barbeiro e um seguiu na profissão de marceneiro. Mas depois eles foram mexer com outros comércios, se casaram e eu e meu irmão viemos tocando isso aqui há muito tempo e vou até onde Deus quiser. Tem aquele ditado: ‘fazer o pé de meia enquanto é novo’. O meu filho aprendeu a profissão, trabalhou com isso em outro salão e na estrada de ferro, mas agora aposentou e espero que ele continue aqui depois”, relembrou Biju.

Segundo seo Biju, o salão contribuiu para o desenvolvimento do Bairro Abadia. Não havia asfalto e poucas pessoas moravam na região. O pai dele foi o pioneiro em corte de cabelos de mulheres, pois que não existiam cabeleireiros – o que foi algo revolucionário para a época. Além disso, foi o primeiro comércio do bairro a ter um rádio e, com isso, muitas pessoas viraram freguesas porque queriam ficar perto da novidade.

“Meu pai foi uma pessoa e um barbeiro muito prestativo, habilidoso, esperto para trabalhar. Naquele tempo não usava cabelo quadrado, era uma nuca disfarçada”, comentou o barbeiro.

“Para a época, ele foi pioneiro em muita coisa. Ele contribuiu para o crescimento do bairro e da cidade”

“Nascido do futebol”

A Choperia Archimedes nasceu do futebol. Para homenagear a façanha do Esporte Clube Fabrício no título do Campeonato Amador de 1952, Archimedes Geraldo de Almeida, em parceria com o Zé do Quelé, que foi um dos destaques do clube, resolveu abrir o Bar do Campeão.

A casa que deu lugar ao empreendimento da família tem mais 100 anos e fica no Bairro Fabrício. Inicialmente, o imóvel pertenceu a Antônio Pedro Naves que a vendeu a Paulo Finhold que depois repassou o imóvel a Archimedes, cuja família é a proprietária até hoje.

A casa repleta de portas e janelas, mesas de madeiras com tampos de granito, cadeiras e uma geladeira de quatro portas deu lugar ao bar. Na época, a esquina da Rua Padre Zeferino com a Rua Tiradentes era um subúrbio com vias de terra batida, muitas árvores e quintais. A Igreja de Santa Terezinha era a referência do bairro.

Atrás do balcão, Archimedes misturava o bom humor com a firmeza de quem recebia os fregueses na própria casa, já que no bar trabalhava toda a família. Os clientes eram servidos com cervejas tradicionais, cachaças de alambique e quitutes.

No Bar dos Campeões não tinha música ao vivo ou de rádio e sempre era fechado, pontualmente, à meia noite. O único barulho que se ouvia era a conversa das pessoas. À medida que o Campeonato Amador foi se distanciando, o nome Bar do Campeão, mesmo sem placa de identificação na porta, foi substituído por Choperia do Archimedes, no fim dos anos 50.

Archimedes, que passou a ser o único dono do bar, manteve o negócio até o começo dos anos 1980, quando era conhecido como referência de chopp bem tirado em Uberaba e região. A Choperia do Archimedes ficou fechada de 1985 até 1999, ano em que Saulo Kikuchi e Donato Cicci Neto modernizaram o negócio e reformaram a casa centenária, mantendo as características originais.

“Depois que o senhor Archimedes faleceu, o bar passou por uns quatro donos. Acho que eles queriam levar o comércio da maneira que o Archimedes fazia, mas não conseguiram copiar o modelo de gestão dele. Na época que reabri a choperia não havia tantos bares. Então, resolvemos mudar a linha, mantendo a arquitetura e com um lado mais musical. Acho que conseguimos um modelo legal”, disse Kikuchi ao G1.

“Durante este tempo que estou na gestão, acho que uma das maiores conquistas de Uberaba foi a transformação da Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro (FMTM) em Universidade Federal (UFTM). Isso trouxe muitos estudantes, professores e doutores na cidade”, acrescentou Kikuchi

“A gente tem muito orgulho de ser um dos bares mais tradicionais de Uberaba. Isso tudo foi construído ao longo do tempo com o MPB e o Jazz. Parabéns a Uberaba e obrigado a cidade que nos acolhe”

Point e Frutas frescas

O Rei da Vitamina está na Galeria Rio Negro, na Avenida Leopoldino de Oliveira, desde 1968. Nessa época, a lanchonete era o ponto de encontro dos jovens casais de namorados que iam ao Cine Metrópole e Cine São Luiz. O movimento durante o dia também era intenso e até fila se formava em busca das vitaminas do Mário Toitio, descendente de japoneses que nasceu em Ribeirão Preto (SP), em 1924.

“A avenida era bem movimentada, com cinemas e lojas. A lanchonete funcionava das 8h até meia-noite por causa dos cinemas que tinham duas sessões. O pessoal saía do cinema e ia tomar vitamina do senhor Mário”, contou o filho do Nikkei, Mario Toitio Junior.

Antes de abrir o Rei da Vitamina, o Toitio havia trabalhado em outros tipos de vendas. Em 1947, abriu um mercadinho de frutas e verduras, e a tendência em ser comerciante começou a nascer ali. “Naquela época, meu pai já era um empreendedor além do seu tempo. Ele pensava em montar um negócio que fosse bom para a saúde”, contou Junior.

Em 1954, ele inaugurou uma casa de vitaminas na Praça Rui Barbosa, a Maçã de Ouro, que depois passou a ser na Rua Artur Machado. Toitio criou, 14 anos depois, o Rei da Vitamina, que fica no mesmo lugar até hoje.

Segundo Mario Toitio Junior, o segredo do sucesso de o comércio ter se tornado um dos mais tradicionais da cidade foi o fato de o pai dele usar sempre frutas frescas e naturais as quais ele fazia questão de buscar em outras cidades da região, como o abacaxi em Monte Alegre e o abacate de Araxá.

Foi do dinheiro do comércio que o Nikkei conseguiu criar a família. Dos seis filhos, o único que seguiu o ramo na lanchonete foi o filho Mario Toitio Junior, que também passou o negócio para a irmã mais velha. O negócio nunca saiu das mãos da família.

Assim como o seo Biju, Toitio ganhou uma homenagem do Município e recebeu, em agosto de 2000, o título de cidadão uberabense. Toitio morreu em fevereiro de 2011.

“Hoje, muitas pessoas que estão fora de Uberaba quando vem passear vão tomar vitamina para lembrar dos velhos tempos. Tiram fotos pra mostrar para os filhos e netos. É difícil um pequeno negócio como o nosso durar tanto tempo. Graças ao meu pai que com muito trabalho e carisma conquistou tanta gente. Deixou um forte legado”, comentou Toitio Junior.

“Foi gratificante ver que fizemos parte do crescimento da cidade e ver aonde ela chegou”.

Source :

Globo

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