O segundo assassinato de Marielle Franco

Image: El País

 

Todas as vidas humanas têm valor e todos os crimes são abomináveis, seja o de um presidente de um país, o de um policial ou o de um garoto da favela; o de um negro ou o de um branco; o de uma mulher ou o de um homem; o de um gay ou o de um heterossexual.

Mas nem todos os crimes têm a mesma carga simbólica. Nem a intencionalidade dos assassinos é sempre a mesma. O pistoleiro que mata o dono de uma loja durante um assalto não persegue os mesmos objetivos que o fanático islâmico que executa um desenhista de caricaturas. Apesar de as duas vidas terem valor idêntico e os dois assassinatos serem igualmente condenáveis, o segundo encerra uma mensagem muito mais forte: não pretende só matar uma pessoa, seu propósito é destruir um modo de convivência social.

Quando um político é assassinado por sua própria condição de político, o assassino pretende algo mais do que matar uma pessoa. Quer acabar com suas ideias e, sobretudo, com seu direito a expressá-las. Se além disso ainda se trata de um cargo eletivo, as balas não são dirigidas apenas contra essa pessoa, mas contra todos aqueles que a elegeram para que as representasse. Por isso um crime político é algo mais que uma morte violenta, é uma tentativa de desestabilização, um atentado à democracia, como definiu o presidente Michel Temer em sua mensagem depois da brutal ação que acabou com as vidas de Marielle Franco e Anderson Gomes. Não é preciso compartilhar as ideias da vítima, pode-se inclusive divergir radicalmente delas. O fato de alguém ter sido assassinado também não implica que tivesse razão no que defendia. Mas um democrata deve condenar sem reservas o recurso à violência como meio de calar um político, um ativista social ou um cidadão que manifesta suas opiniões. Essa é a reação própria das sociedades civilizadas e é a que teve a imensa maioria do Brasil sob a comoção do que ocorreu no Rio de Janeiro: os três poderes da República, os principais partidos políticos, os meios de comunicação mais representativos, personagens públicos e não tão públicos, pessoas de esquerda, de centro, de direita ou sem ideologia política definida.

Quando alguém morre, nas circunstâncias que forem, as pessoas costumam respeitar a dor de sua família, deixar que seus amigos honrem a memória do falecido, demonstrar um pouco de solidariedade humana. Ninguém com o mínimo senso de convivência social se dedica a ofender quem perdeu a vida, muito menos inventar fofocas para sujar sua memória. É também próprio das sociedades civilizadas e é o que fizeram milhões e milhões de brasileiros nos últimos dias.

Mas no Brasil estão crescendo como um vírus infeccioso grupos que se empenham em romper com essas normas básicas da civilização. Aproveitam-se da confusão que o país vive, da miséria e da violência que abala as cidades, da herança nefasta de um sistema político tradicional corrupto até a medula, cujos representantes desfrutam de escandalosos privilégios. Dizem falar em nome da moral, da segurança pública ou até, em um traço de humor irônico, dos valores cristãos e do liberalismo. Utilizam a corrente imparável das novas tecnologias e, em muitas ocasiões, das possibilidades que oferecem para se esconder covardemente no anonimato. E aí, nesse oceano tormentoso e labiríntico, difundem todo dia suas toneladas de veneno, fazem detonar seus arsenais de ódio, despregam sua maquinaria de mentiras e difamações.

Assim chegamos até aqui. Até que um dos candidatos melhor situados para as eleições presidenciais de outubro, um homem que se gaba de ser o mais macho e valente, o único que tem a coragem precisa para enfrentar os criminosos, não tenha se atrevido a dizer uma palavra depois do assassinato político que comoveu o país. Parece, segundo disseram seus assessores, que não quer falar para não ser polêmico. Adiante, senhor Bolsonaro, fale, por favor. O silêncio é a resposta dos covardes. Fale, senhor candidato, explique por que não quer condenar o crime de uma política democrática, o senhor que se lançou à corrida eleitoral em nome da Bíblia. Nada mais vai nos surpreender no senhor depois de termos visto há apenas algumas semanas posando muito sorridente com o cartaz “Direitos humanos, esterco da vagabundagem”.

Mas a barbárie dialética no Brasil também tem sua versão pop. Esses garotos tão modernos, tão liberais, tão descontraídos e tão simpáticos que inundam as redes com seus vídeos cheios de piadas e gargalhadas. Esses jovens que dão lições de democracia e dizem ser o movimento que representa o Brasil Livre empregam atualmente todo seu empenho para relativizar as mortes de Marielle e Anderson. Em sua habitual mistura de ousadia e ignorância, até esgrimiram uma teoria destinada a revolucionar a ciência política: segundo eles, todos os assassinatos, absolutamente todos, são políticos. Nada que não se pudesse esperar de gente cuja noção do debate público se reduz a pouco mais do que uma troca de memes. O pior é que, em seu afã de levantar todos os dias uma trincheira, se prestaram a agir como veículo para espalhar uma série de mentiras que, além de manchar a memória da vítima, servem no fundo de justificativa para seu assassinato. Como se depois da morte física de Marielle fosse necessário perpetrar uma segunda morte simbólica. Claro que esses garotos tão corajosos e tão liberais se puseram rapidamente a dizer que não fabricaram essas difamações. Ingênuos que são, simplesmente reproduziram as mentiras alheias para servi-las de bandeja a seus fiéis. É o que há de bom nas redes: um se limita a compartilhar e a partir desse momento os responsáveis são outros.

Depois do que aconteceu nos últimos dias, fica mais claro do que nunca que não se trata de uma batalha entre direita e esquerda, nem de Governo contra oposição. A reação majoritária, acima das diferenças ideológicas, foi própria de uma sociedade democrática como a brasileira. Mas há outra corrente que percorre o país há tempo e que propõe um dilema que vai muito além do jogo político habitual: a civilização ou a barbárie.

Source :

El Pais

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