Os homens percebem mesmo de futebol?

Photo: sabado

 

“Não sou sexista, mas não acho que as mulheres devem falar sobre futebol – não estão aptas a falar sobre isso”. Assim falou em 2016 Sinisa Mihajlovic, o novo treinador do meu clube-em-espiral-recessiva, em resposta às críticas de Melissa Satta, apresentadora de TV e companheira de Kevin-Prince Boateng, que Mihajlovic treinou no Milan. Mihajlovic não cunhou a tese: ela é partilhada há muito por boa parte da humanidade que segue o jogo, com destaque para a parte masculina. Num mundo em que a autoridade natural dos homens já não é o que era poucas coisas dão mais gozo – aquele gozo confortavelmente paternalista – do que um gajo poder explicar à namorada durante o Mundial as regras do fora-de-jogo.

O problema é que a muitas pessoas, gajos incluídos, não percebem puto de futebol. Saber como se joga o jogo, as regras, não é a mesma coisa que conhecer o jogo. Porque eu sei que o bispo se desloca na diagonal e o cavalo pode saltar sobre as peças quando faz o seu L não significa que saiba jogar xadrez – ou que saiba descodificar, realmente, um jogo entre profissionais. No futebol acontece o mesmo, só que ninguém admite. Todos demos ou damos uns pontapés numa bola e todos achamos que sabemos. (É um pouco como o jornalismo: todos já contaram uma história e escreveram umas linhas e, por isso, todos sabem como se faz jornalismo.)

Num país como o nosso, em que incontáveis horas de televisão e incontáveis artigos são dedicados ao futebol, são diárias as revelações de que quase ninguém sabe o que está a dizer.

Muitos dos programas sobre bola dão, de resto, pouquíssimo espaço ao jogo em si e aos jogadores, preferindo gastar a maioria do tempo na arbitragem ou nas escandaleiras conexas. Não é por acaso. Quando se fala sobre o jogo em si é notória a falta geral de tino – e não estou só a falar de coisas com “a bola prende por causa do calor” de Nuno Luz, durante o relato do Portugal x Marrocos. Seja nos media ou nas bancadas parece-me que muitos não conseguem perceber as estratégias, o perfil de cada jogador, o trabalho em campo quando não têm a bola,
etc. etc. (Eu, que gosto de futebol e que vejo muitos jogos, sei que não sei.)

Claro que não temos de saber a fundo para gostarmos – vemos, sofremos, vibramos e pronto.

Não é disso que estou a falar. Estou a dizer é que a bazófia de que nós, gajos, é que percebemos naturalmente disto não é verdade desde logo porque não percebemos assim tanto – imagino que os jogadores e treinadores que levam diariamente com as alarvidades de adeptos, comentadores e jornalistas conheçam bem o que eu estou a dizer.

Talvez a bazófia seja hoje, afinal, uma tentativa de preservação do tal terreno masculino seguro. Há dias, Eniola Aluko, que assinou pela Juventus e fez mais de 100 jogos pela selecção inglesa, dissecava a vitória da Sérvia sobre a Costa Rica num comentário no canal britânico ITV quando o co-comentador Patrice Evra bateu palmas e chegou a sugerir em tom de brincadeira ao outro comentador, o ex-internacional sueco Enrik Larsson, que se fossem embora porque não estavam ali a fazer nada. Ao contrário do gajo que explica o fora de jogo à namorada, Evra, um belo jogador, até sabe mesmo da poda. Mas, no meio da brincadeira no estúdio, o subtexto é evidente – tu até podes perceber disto, minha cara, mas a bola é nossa.

Source :

sabado

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