Em meio à crise na Venezuela, aumenta fluxo de turistas em Roraima com destino ao país

Source: Internet

A desvalorização do bolívar, moeda em circulação na Venezuela, é apontada como um dos principais motivos por quem escolhe cruzar a fronteira do país por Roraima. As belezas naturais do mar do Caribe também estão entre os atrativos que levam os turistas a escolherem o destino.

Da Rodoviária Internacional de Boa Vista, na zona Sul da cidade, um ônibus sai todos os dias com destino ao município de Pacaraima, última cidade brasileira antes da fronteira com a Venezuela. De lá, muitos turistas entram no país em ônibus ou táxis venezuelanos.

Outros ônibus que partem de Boa Vista e fazem o trajeto internacional cruzam a fronteira do país três vezes por semana levando mais de 130 pessoas a diversas cidades venezuelanas. O Itamaraty recomenda que cidadãos brasileiros devem ter alto grau de cautela na viagem.

De acordo com números da rodoviária, mais de 2,2 mil pessoas já saíram de Roraima com destino à Venezuela entre o mês passado e o último domingo (7).

Os dados também incluem venezuelanos que imigraram para o estado em razão da crise no país ou para outras regiões do Brasil e viajam de volta a Venezuela.

Jerry Batista, que administra a rodoviária, disse ser comum o aumento no fluxo de passageiros em finais e inícios de ano, mas o que chama a atenção agora é a quantidade crescente de turistas indo para a Venezuela apesar do momento que o país enfrenta.

“Nessa época do ano é até natural a rodoviária ficar com esse movimento de pessoas, mas os dados mostram um número expressivo de passageiros com destino à Venezuela. Muita gente está optando por viajar pra lá”.

Uma empresa de ônibus que faz a rota até Puerto la Cruz, cidade a mais de 1.000 Km de Boa Vista, teve aumento de 56% nas vendas em comparação ao mesmo período do ano passado.

Só por essa empresa, 784 passageiros embarcaram de dezembro a janeiro deste ano para algum destino venezuelano. No mesmo período do ano anterior, foram apenas 501 passageiros.

Para dar conta da demanda, a empresa aumentou a frota de ônibus com destino à Venezuela. Agora, são três ônibus com capacidade de 44 passageiros saindo semanalmente de Boa Vista ao país vizinho.

Vera Menezes, de 49 anos, faz parte desta estatística. Ela saiu da rodoviária de Boa Vista na última semana e percorreu mais de 1.200 Km até chegar à Ilha de Margarita, um dos destinos venezuelanos mais procurados pelos brasileiros. A viagem durou mais de 20 horas.

“Estamos indo em caravana. Saímos de Manaus de ônibus até Boa Vista, onde embarcamos novamente até Puerto la Cruz, do lado do Caribe venezuelano”, disse Vera.

A turista garante que a atual crise que a Venezuela enfrenta não foi motivo de intimidação.

“No Brasil também temos nossos problemas. Vamos na paz para que dê tudo certo”.

Por conta da crescente procura de pessoas para o país vizinho, as passagens de ônibus até Puerto la Cruz foram todas vendidas e estão esgotadas pelas próximas duas semanas. Com isso, turistas acabam saindo de Boa Vista em táxi intermunicipais até Pacaraima, cidade fronteiriça distante 215Km de Boa Vista.

Foi o caso do Nilton Souza, de 23 anos, que viajou com o namorado Johnnatan Rodrigues no último dia 4 de janeiro com destino à Ilha de Margarita. Ao G1, ele disse que de Pacaraima à Puerto la Cruz pegou um ônibus de uma empresa venezuelana e viajou por quatro dias.

“Aqui tem uma facilidade maior para provar frutos do mar e outras comidas que costumam ser vendidas nas praias e os preços são menores que no Brasil. Atrelado ao transporte e hospedagem baratos, vale a pena”, disse Nilton.

Outra turista que escolheu a Venezuela como destino foi a professora Viviane Morales. Ela mora em Boa Vista e chegou à Ilha de Margarita no último dia 29 de dezembro com a família e amigos.

Apesar de ter escolhido ir ao país, ela conta que sofre com a oscilação constante e diária de preços alterados pela inflação galopante que desvaloriza a moeda venezuelana.

Além disso, segundo ela, é difícil encontrar produtos básicos em supermercados, hotéis e restaurantes e até alimentos da cesta básica.

“Os preços sobem todos os dias. Por exemplo, coloquei as roupas para lavar na lavanderia e era 40 mil bolívares o quilo. No dia seguinte aumentou para 58 mil bolívares. No domingo [7] no restaurante o quilo da comida estava 200 mil bolívares, mas na segunda [8] tava 290 mil”, exemplificou.

Apesar disso, ela acredita que ainda compensa viajar para o país por causa dos baixos preços de hotéis e restaurantes.

“Já foi melhor, mas o que compensa muito são os gastos pequenos com transporte e hospedagem. Gastei pouco se comparado ao que gastaria no nordeste brasileiro, por exemplo”.

O turista Jaklias Alves Silva diz que também houve alta nos preços das embarcações que levam os visitantes até a Ilha de Margarita. Segundo ele, em setembro do ano passado o valor por pessoa era de R$ 7 a R$ 13 reais e agora varia de R$ 30 a até R$160.

Moeda desvalorizada atrai turistas de Roraima

De acordo com o professor João Carlos Jarochinski, do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de Roraima (UFRR), o destino é atrativo aos brasileiros por conta da valorização do real frente à moeda venezuelana, o bolívar.

No entanto, a instabilidade econômica e a inflação que atinge o país pode atrapalhar o planejamento financeiro.

“Com o quadro inflacionário alto, se você se programar pra uma viagem nessa semana, quase certo que na outra haverá mudanças nos orçamentos, porque o câmbio é muito instável, principalmente no ‘câmbio negro”, explicou o professor.

Até a manhã de quarta (10), o câmbio negro da moeda na fronteira, que é o mais usado pelos turistas, estava de R$ 1 para 15 mil bolívares. Esse câmbio paralelo não é reconhecido pelo Banco Central do Brasil.

O professor disse ainda que, com base em estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI), a previsão é que a inflação no país vizinho chegue a 2.300% neste ano. Diante disso, o mais seguro, segundo ele, é cruzar a fronteira com o dinheiro convertido em dólar.

“O ideal é levar dinheiro em dólar, já que os principais pontos turísticos costumam aceitar a moeda americana e o volume de notas é bem menor se comparado ao bolívar”, recomendou.

Ele alertou ainda para a assistência médica dentro do país. Para ele, é imprescindível que os turistas se atentem à questão da saúde, que atualmente é precária no país.

“Nas viagens internacionais é recomendável que se faça um seguro de saúde. Com a atual situação da Venezuela, isso é complicado, já que até remédios costumam faltar nos centros médicos”, disse.

Itamaraty recomenda alto grau de cautela a turistas

Na página do Portal Consular da Venezuela, o Itamaraty diz que os brasileiros devem ‘viajar com alto grau de cautela’ devido à delicada situação do país.

Segundo a nota, é recomendavel que os turistas tenham sempre em mãos os contatos dos Consulados do Brasil em Caracas e da Ciudad Guayana.

Ainda segundo o Itamaraty, atualmente as viagens terrestres são desaconselháveis, já que há relatos, na região de fronteira, de cidadãos brasileiros que foram extorquidos por autoridades de controle.

“O Vice-Consulado do Brasil em Santa Elena do Uairén [primeira cidade após a fronteira de Roraima] tem recebido reclamações sobre brasileiros vítimas de extorsão no percurso de Santa Elena para o litoral e sobre os perigos existentes nesse trajeto”, explica o Ministério.

Source :

Globo

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