Planos de reconstrução da Síria atraem empresas brasileiras

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Em Homs, na Síria, placas com os dizeres “juntos, vamos reconstruir”, colocadas estrategicamente em frente a hotéis e prédios públicos, não deixam dúvidas. Depois de sete anos de guerra, há sinais de estabilidade em locais relevantes – e o desejo de restaurar o que foi destruído tem tomado corpo. Cerca de dois terços do território, onde vive 80% da população, voltou às mãos do regime de Bashar al-Assad. Na geografia dos conflitos, cidades importantes como Alepo e Homs, retornaram à órbita do governo central.

O Estado Islâmico também foi praticamente derrotado. Os reflexos na economia já se fazem sentir. Em agosto do ano passado, foi realizada, pela primeira vez em cinco anos, a Feira Internacional de Damasco, uma das mais antigas do mundo árabe, que reuniu centenas de empresas de 23 países. Rússia, China e Irã, que apoiam o presidente sírio Bashar Al-Assad, estiverem presentes, além de nações neutras, como o Brasil. “Países com uma atitude hostil em relação à Síria não foram convidados”, disse Fares al-Kartally, diretor-geral da feira, na ocasião.

O Banco Mundial calcula que serão necessários 250 bilhões de dólares para reconstruir a Síria. Bombas e morteiros atingiram pesadamente 30% das residências, que vieram abaixo, e pelo menos 20% do parque industrial, segundo estimativas de instituições internacionais. A rede elétrica e de fornecimento de água também foi seriamente danificada.

Com as finanças do país bastante prejudicadas, a maior parte dos recursos para reerguer a Síria deverá vir da iniciativa privada de outros países, interessados no bilionário mercado da reconstrução sírio. A Rússia, que teria gasto cerca de 3 milhões de dólares por dia na guerra, já assinou um acordo de mais de 1 bilhão de dólares na área de infraestrutura e energia com o governo sírio. O Irã pretende investir no setor de telecomunicações, que precisará de grandes reparos. A China se prepara para atuar na área de construção civil – executivos de cerca de 30 empresas chinesas do segmento visitaram a Síria em 2017, segundo fontes oficiais do governo chinês.

O Brasil também se organiza disputar uma fatia desse mercado. Dezenas de empresas brasileiras participaram da Feira Internacional de Damasco e da Re-Build Syria, realizada em setembro, com apoio do governo brasileiro. O Ministério das Relações Exteriores tem revelado interesse em promover os laços comerciais com a Síria e reestabelecer totalmente as funções diplomáticas no país. Desde 2012, boa parte dos funcionários da embaixada brasileira em Damasco foi transferida para a Beirute, no Líbano, por questões de segurança. Agora, o Itamaraty se prepara para levar todo o seu corpo diplomático de volta à Síria.

A expectativa é que seja nomeado um embaixador para Damasco ainda este ano. No momento, o Itamaraty busca um imóvel para abrigar o corpo diplomático e a residência do embaixador. O encarregado de negócios do Brasil na Síria, o diplomata Achilles Zaluar, tem passado pelo menos quatro dias da semana em Damasco. A agenda costuma girar em torno da possiblidade de negócios para empresas brasileiras. “O Brasil é visto como um país amigo e há disposição por parte da Síria em reforçar as relações comerciais conosco”, diz.

O volume de exportações do Brasil para a Síria bateu um recorde em 2010, um ano antes da deflagração da guerra, quando foram comercializados quase 550 milhões de dólares em café, açúcar, madeira, carne, calçados, gesso e cimento, entre outros itens. A partir de 2011, as exportações começaram a cair gradativamente, até somar apenas 74,5 milhões de dólares no ano passado. “O comércio com a Síria tem uma importância histórica e pode abrir portas para empresas brasileiras interessadas em vender para o Oriente Médio, importante comprador de commodities e outros produtos da nossa pauta de exportações”, diz Michel Alaby, secretário geral da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira.

Na visão de Alaby, os setores mais promissores, atualmente, são o de medicamentos, equipamentos hospitalares, tubos e conexões, maquinário e material para construção civil. “Está valendo a norma de que, quanto maior o risco, maior o retorno”, diz. Para atrair grupos empresariais dispostos a investir no país, vantagens comerciais estariam sendo colocadas nas mesas de negociação.

“Disponibilizaram para a minha empresa um terreno grátis caso quiséssemos abrir uma fábrica na Síria”, diz Alessandro Chimentao, diretor internacional da Prime, empresa de cosméticos de São Paulo. Chimentao participou da Feira Internacional de Damasco no ano passado. “O potencial de vendas da Síria é muito grande”, diz. “Agora que o conflito está restrito a algumas partes do país, as pessoas estão voltando a consumir e ter esperança no futuro”, afirma. Cerca de 25% do faturamento da empresa são provenientes de exportações para países do Oriente Médio, como o Iraque e o Egito. O carro-chefe é um produto para alisar o cabelo à base de ingredientes naturais

A Prime já fechou contrato com um distribuidor local e deve começar as exportações para a Síria no primeiro semestre deste ano. Para facilitar as operações comerciais, a empresa trouxe um sírio, especialista em comércio exterior, para a sede da empresa em Jundiaí, no interior de São Paulo – ele ficará encarregado da comunicação e de particularidades das transações com a Síria. “Abriu-se uma oportunidade em uma nação que sempre foi uma grande consumidora, e vai ganhar quem chegar primeiro”, diz Chimentao.

Empresas de outros setores também estão interessadas no mercado sírio. A União Química Farmacêutica, fabricante de medicamentos, é uma delas. A empresa participou da feira Re-Build Syria, realizada em Damasco, que contou com 247 exibidores. A companhia, que possui seis unidades fabris, em cidades como Brasília, Pouso Alegre (MG) e Embu Guaçu (SP), estuda a possibilidade de vender para a Síria analgésicos, anti-inflamatórios e antibióticos de uso hospitalar, em falta no país. “Como os países do Oriente Médio possuem regras em comum para a importação de medicamentos, ao começar a vender para um deles teremos a certificação para comercializar com os demais, o que é uma vantagem competitiva”, diz Antonio Salgado Gonçalves Neto, diretor de novos negócios.

Barreiras

Devem pesar na decisão do executivo os desafios de investir no país. O embargo dos Estados Unidos afetou importantes aspectos da economia síria. A maioria dos bancos, muitos de bandeira internacional, deixou de operar no país. Em geral, é preciso utilizar instituições sediadas no Líbano, aliado da Síria, para efetuar as transações comerciais. Além disso, os voos a partir da Europa e dos Estados Unidos foram cancelados. A maioria dos empresários brasileiros têm optado por voar até a Turquia ou algum outro país do Oriente Médio e de lá voar para Damasco, ou desembarcar em Beirute e seguir de carro até a Síria.

Também falta capital humano. Mais de 350.000 pessoas foram mortas no conflito. Cerca de 5,5 milhões deixaram o país, fugindo da guerra. Muitos procuraram asilo em países vizinhos, como o Líbano, em que um quarto da população hoje é formada por refugiados, e o Iraque.

No norte do país, perto da fronteira com a Turquia, bombardeios marcaram a última semana, com o exército turco lutando contra milícias curdas posicionadas na região. A leste, ainda são travados conflitos com o que restou do Estado Islâmico. Diversas milícias, algumas apoiadas pelas forças de coalisão, lideradas pelos Estados Unidos, continuam em atuação em determinadas partes do país.

Do ponto de vista das relações comerciais, persiste também a questão da concorrência com países mais bem posicionados no jogo, como a Rússia, a China e o Irã. “Eles têm chances maiores de conseguir grandes contratos, mas os planos de reconstrução da Síria podem representar uma boa oportunidade para empresas brasileiras, especialmente aquelas com espírito empreendedor e dispostas a arriscar”, diz Alaby.

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Exame

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